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sábado, 22 de outubro de 2016

MULHER ESTUPRADA POR DEZ HOMENS FOI ACARICIADA POR SUSPEITO DENTRO DA VIATURA

Por Ricardo Rigel
Tente visualizar a cena: dentro de uma viatura da Polícia Militar, uma mulher que acaba de ser vítima de um estupro coletivo, cometido por dez traficantes, se espreme no canto da janela do banco traseiro. Ao seu lado, dois de seus algozes. Um deles, em determinado momento, alisa a sua perna e cochicha em seu ouvido: “Fica tranquilinha. Vai dar tudo certo”.

A frase, dita em tom ameaçador, foi destinada à vendedora de 34 anos que, há quatro anos, é vítima de sucessivos estupros cometidos por traficantes da sua região.
O último abuso aconteceu na madrugada de segunda-feira (17/10), no bairro Lagoinha, em São Gonçalo/RJ, mas até agora ela continua desamparada pelo poder público.
Após a decisão dos policiais militares de colocar vítima e acusados do crime lado a lado, a mulher contou ter passado por um constrangimento também na delegacia: o policial responsável pelo registro usou, na ocorrência, termos obscenos para descrever a agressão (veja trechos do depoimento abaixo).

Ontem (21), após a repercussão do caso, a Chefia da Polícia Civil determinou a redistribuição do inquérito policial à Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (Deam) de São Gonçalo para prosseguir nas investigações.
“Estou me sentindo completamente desamparada. Eu tinha medo de que justamente isso pudesse acontecer se eu registrasse o caso. Minha vida está devastada. Eu e minhas filhas não podemos ir para casa. As amigas das minhas filhas foram a minha casa e encontraram tudo revirado. Tentaram levar até a minha máquina de lavar”.
POLICIAL NÃO VIU PROBLEMA
O termo de declaração da vítima, colhido pelo comissário Jorge Luiz Prudêncio na 74ª DP (Alcântara), traz expressões como “boquete triplo”, “não usaram camisinha, no pelo” e até a frase “só gritou porque empurraram um galho de árvore em sua bunda”. Procurado pelo EXTRA, o policial não viu problemas na linguagem utilizada no documento.
“Foi tudo feito normalmente. Os termos foi ela que falou. Terminou e eu perguntei: ‘É isso?’, e ela assinou. Não houve constrangimento nenhum”, garantiu Jorge.
Mesmo assim, a Polícia Civil informou que foi aberto um procedimento para apurar eventual existência de infração disciplinar por parte do agente.
“ME SENTI MUITO ABANDONADA”
“Nunca procurei a polícia, porque eu tenho muito medo do tráfico. Queria preservar as minhas filhas. Não queria que isso chegasse aonde chegou. Além disso, não tinha para onde ir. Não é fácil. Durante o depoimento, fiquei muito desconcertada. Tinha acabado de acontecer tudo aquilo comigo. Estava sentindo dor e ainda muito abalada. Depois, fui para casa e me senti muito abandonada. Quinta-feira (20), me senti péssima. Um policial me ligou e disse que eu não tinha falado tudo no depoimento e que eu deveria voltar lá. Ele me deixou assustada. Só quero que minhas filhas possam dormir tranquilas em suas camas. Quero acabar com esse pesadelo”.
O CASO
Nos últimos quatro anos, a vendedora , de 34 anos, moradora do bairro Lagoinha, em São Gonçalo, vem sendo vítima de estupros coletivos desde que um ex-namorado, espalhou entre a comunidade, um vídeo íntimo deles filmado sem o consentimento dela.
Depois do episódio, traficantes do bairro, passaram a violentá-la. Já foram quatro episódios.
POLÍCIA MILITAR
Segundo a corporação, na ocasião, a equipe encontrou a vítima e deu toda a atenção a ela.
“Pelo fato de outras viaturas também estarem empenhadas em ocorrências e por se tratar de área de risco, a condução se deu numa única viatura, havendo atenção em relação à vítima”.
POLÍCIA CIVIL
De acordo com informações da 74ª DP (Alcântara), foi instaurado um procedimento para identificar outros envolvidos no estupro. No dia do fato, dois adolescentes foram apreendidos por policiais militares e conduzidos à delegacia.
A vítima foi ouvida e narrou ter sofrido abusos sexuais por quatro pessoas.
O caso está sob sigilo.
A Secretaria estadual de Direitos Humanos também está acompanhando o caso.
APOIO
A Comissão de Direitos Humanos da Alerj tem acompanhado a vítima e já a levou para fazer exames médicos.
Ela também passará por um tratamento psicológico.
Já a Defensoria Pública do Rio disse que já recebeu um pedido de ajuda e que está tomando conhecimento sobre o caso.
PROCESSO EMPACADO
Um impasse envolvendo diferentes instâncias judiciais manteve parado por cerca de três meses o processo referente ao estupro coletivo sofrido por uma adolescente de 16 anos no Morro do Barão, na Praça Seca, Zona Oeste do Rio, em maio deste ano.
A Justiça Federal tomou o caso para si, em virtude da divulgação das imagens sexuais da menor nas redes sociais, crime que foge da esfera estadual.
O Tribunal de Justiça do Rio, por sua vez, alegava que ao menos o processo referente ao estupro seria, sim, de sua competência.
Coube ao Superior Tribunal de Justiça, no último dia 4, dar fim ao impasse, desmembrando o processo de acordo com as atribuições de cada órgão.
Assim, são réus na 2ª Vara Criminal de Jacarepaguá, pelo crime de estupro, Raí de Souza e Raphael Assis Duarte Belo, que cumprem prisão preventiva, e Moisés Camilo Lucena, atualmente foragido.
(Ricardo Rigel do EXTRA ONLINE)
(Colaboraram Luã Marinatto e Wilson Mendes)

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