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segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

A ENEIDA AGRA – PELO QUE ELA FOI, É, SERÁ!

Por Edmundo Gaudêncio*
Dias atrás, preparando-me para o “Bloco da Saudade”, busquei no comércio uma máscara que melhor me coubesse ou na qual eu pudesse caber melhor – porque, de fato, ao escolhermos uma máscara, no afã de nos ocultarmos, terminamos, enfim, nos revelando naquele, naquela, naquilo que desejaríamos ser em lugar de sermos nós ou em lugar de não ser.

Máscaras mil: de bichos a celebridades, passando pelas célebres mascaradas de palhaços e pierrôs.
Enquanto, indeciso, experimentando uma e outras, não pude deixar de me lembrar: Na Grécia homérica, o nome dado à máscara do sacerdote condutor dos ritos dedicados a Dioniso, deus do vinho, da alegria e da loucura, era Persona.
Depois, transposta para o teatro, Persona foi a máscara de detrás da qual falava o autor: per+sonare, “falar através ou por trás de”, assumindo o termo, mais tarde, feição psicológica, fantasiada, a palavra Persona, no termo Personalidade.
Enquanto divagava, simpáticas despachantes de lojas também simpáticas me perguntavam “Afinal, o senhor vai ou não vai comprar?”. 
Nada comprei: Por que haveria de comprar-me aquilo que não fui, não sou, não serei, a fim de ocultar quem não serei, não sou, não fui? De ônibus – porque não dirijo –, matutando sobre em que me disfarçar, lembrei-me de meu velho amigo Pessoa (que foi muito mais de quatro pessoas, sendo apenas e tão-somente um): “Existo sem que o saiba e morrerei sem que o queira. Sou o intervalo entre o que sou e não sou, entre o sonho e o que a vida fez de mim...”.
Por isso, mais tarde, decidi: Caí na folia sem fantasia, sendo quem sou sem o ser ou, como todo mundo, não sendo quem bem poderia vir a ser – e ninguém notou que, saudade, saudades!, eu me vestia da melhor alegoria que encontrei no fundo do guarda-roupa de mim.
*Edmundo Gaudêncio é psiquitra e professor

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