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segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

ENTREVISTA COM O POETA JOSÉ LAURENTINO. ELE PASSOU TRÊS ANOS CEGO, FEZ CIRURGIA E RECUPEROU A VISÃO. “É COMO SE EU ESTIVESSE DORMIDO POR TRÊS ANOS E ME ACORDASSE AGORA”

O poeta José Laurentino, um dos maiores expoentes da cultura nordestina teve uma experiência pra lá de complicada. 
Devido a um sério problema de catarata ele passou três anos cego. 
Foi doloroso, mas o poetinha, como ele é conhecido, suportou com muita paciência os momentos sem enxergar. 
Após a cegueira, José Laurentino, natural de Puxinanã, aos 72 anos, se prepara para contar essa experiência no trabalho intitulado “Balada de um poeta cego”.
ACOMPANHE A ENTREVISTA...
COMO FOI VOLTAR A ENVERGAR?
“Passei três anos sem ver minhas mãos. E de repente quando eu saí da sala de cirurgia e entrei no carro da minha neta vi um ‘macaquinho/um chaveirinho se balançando no painel. Eu perguntei se era um macaquinho e ela respondeu que sim. Foi algo emocionante. Ela parou o carro e nós choramos. É como se eu estivesse dormido por três anos e me acordasse agora”.
DURANTE ESSE PERÍODO SEM A VISÃO, COMO FOI?
“Foi de muita tristeza. Sentia falta da lua, das estrelas... Eu ia para a praia e não via o mar, não via as mulheres. Eu fiz até um soneto intitulado ‘Olhos Castanhos’ que diz: Eu não sei se lunar ou se solar, o eclipse que me apareceu. Eu só sei que o mundo escureceu, não avisto a terra, o céu e o mar. Só restou um bordão pra me apoiar e o ombro de um grande amigo meu que de graça a mim se ofereceu no momento em que eu mais precisar. Sinto inveja daquele vagalume que esnobe voeja no alto cume, tem luz própria e não dar luz a ninguém. Minha luz apagou-se o lampejo. Sinto pena de mim porque não vejo os dois olhos castanhos do meu bem.”
COMO FOI QUE O SENHOR FICOU SABENDO QUE ESTAVA PERDENDO A VISÃO? COMO PERCEBEU?
“Eu chegava aos programas de rádio. Eu ia ler um comercial e não conseguia mais ler. Ai eu notei que eu estava perdendo a visão. Chegou a um porto em que eu não conseguia mais ver o número do transporte coletivo. Foi uma coisa gradativa. Eu fui para um médico e ele disse: ‘não lhe opero, não passo óculos, nem colírio. Você tem um problema de catarata. Então está decidido’. Fui para outro médico. Não vou citar os nomes de nenhum dos dois. Neste outro médico ele disse: ‘Poeta, sou seu fã, seu admirador, mas não posso fazer nada’. Como eu não tinha nada para fazer, me recolhi e ceguei. Chegou a um ponto de eu não ver minhas mãos. Ponto zero”.
E DEPOIS...?
“Um certo dia eu disse a minha filha: Liga ai para meu plano de saúde. Procure um oftalmologista. Ligue para qualquer um. Ela disse ‘eu vou ligar para o Dr. Carlos Alberto’. Quando cheguei ao médico ele disse: ‘Poeta os seus olhos estão fechados por catarata de maneira tal que eu não vejo o fundo do seu olho. Eu vou pedir uma ultrassonografia’. Quando veio a ultrassonografia ele disse: ‘Dá pra operar, pois a retina está no canto dela. A retina não saiu. Quanto a catarata, é bronca safada.
QUEM LHE OPEROU?
“Dr. Fábio Queiróz fez a cirurgia e na hora que eu saí da mesa de cirurgia já saí vendo tudo”.
NOS SEUS POEMAS O SENHOR FALA MUITO DAS MULHERES...
“É como eu citei: ‘sinto pena de mim porque não vejo os dois olhos castanhos do meu bem’. Eu sempre fui namorado da lua, do mar, das mulheres. Eu fiquei tolhido durante este tempo. Eu não fiquei limitado. Eu fiquei zerado. Eu não podia ler nada.

NESTE PERÍODO O SENHOR PERCEBEU QUE AS PESSOAS CONFUNDIAM PENA COM SOLIDARIEDADE?
É tanto que eu disse: ‘Não venha me ver por caridade e não mexas na minha cicatriz. Estou sozinho, mas estou muito feliz, obrigado por sua piedade. Já passei dos setenta de idade e na música do tempo não tem bis. Quis fazer-te feliz, e como eu quis, mas nem tudo se faz só por vontade. Vai-te embora buscar outros espaços, outros beijos, carinhos e abraços e me deixas na minha solidão. Nestes versos que eu faço de improviso, de três coisas de ti eu só preciso: um adeus, um abraço e teu perdão.”
E PLANOS? O QUE VEM PELA FRENTE?
“Estou planejando muita coisa. É um recomeço. Estou saindo do Studio onde gravei ‘Balada de um Poeta Cego’. Serão contatos minhas proezas dos três anos que eu vivi como cego”.
QUER DIZER: O SENHOR ENXERGOU OUTRAS COISAS QUANDO ESTAVA CEGO?
“Exatamente! Três dias antes de minha cirurgia, por volta da meia-noite, eu ouvia rádio sozinho, ao lado da minha cachacinha, eu disse: ‘É meia-noite e eu queria tanto beijar teu rosto, enxugar teu pranto, despir teus ombros, retirar teu manto e te envolver eu meu lençol de linho. A ficha cai e a chorar, me curvo. O meu olhar está turvo, não dar ainda pra eu andar sozinho. Meu quatro tem um pequenino bar, cachaça boa que eu mandei comprar e outras cachaças que me dão o povo. De solidão, cantador não morre e só me resta é tomar um porre, cair na cama e apagar de novo”.  

3 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. VALDEIR MORAIS:

    ESTE POETA VALE OURO
    DE DÓLARES VALE UM MILHÃO
    UM POETA SONHADOR
    DE UM ENORME CORAÇÃO
    EU LHES DIGO COM FRANQUEZA
    LHE VIA COM TANTA TRISTEZA
    UM POETA SEM A VISÃO

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  3. ZÉ TÁ CURADO DA VISTA
    DEU GRAÇAS A CONCEBIDA
    RECUPERANDO A VISÃO
    QUE ESTAVA QUASE PERDIDA
    SUA FÉ JÁ PERSISTIA
    JÁ NÃO PRECISA DE GUIA
    PRÁ VER A TAÇA DA BEBIDA

    VALDEIR MORAIS

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