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domingo, 24 de maio de 2015

A ENTREVISTA DA SEMANA É COM TON OLIVEIRA. DE DESMANTELADO ELE NÃO TEM NADA. TON DIZ COMO SURGIU “PARAÍBA JOIA RARA”, CRITICA A SEGURANÇA E CONTA MUITO DA SUA VIDA DE ARTISTA

Gleriston de Souza Leite tem 49 anos de idade e 24 de carreira artística. TON OLIVEIRA, como ele é conhecido, tem uma legião de fãs que impressiona. Filho de cantador, esse talento paraibano brindou o estado com uma canção de arrepiar. Conheça um pouco desse artista que de desmantelado não tem nada. Ton é focado no cotidiano de Campina Grande, da Paraíba, do país e do mundo. O artista está por dentro.

COMO SURGIU PARAÍBA JOIA RARA?
A inspiração veio da própria Paraíba. Da nossa gente; do povo; da própria Paraíba. Da beleza natural que a Paraíba tem. E a música nasceu assim como qualquer outra música nasce. Eu sou compositor desde que eu me entendo “de gente” e a música nasce por acaso, ela chega. Num houve um preparativo, num houve um motivo pra fazer. Surgiu inspirado na beleza. Eu estava na estrada. Eu comecei a música, inclusive pelo refrão admirado pela paisagem... (“Eu sou da Paraíba é meu esse lugar, a cara desse povo tem a minha cara, encanto de beleza que me faz sonhar, lugar tão lindo assim pra mim é joia rara”)

ONDE VOCÊ ESTAVA QUANDO COMPÔS?
Eu estava na estrada entre Arara e Solânea quando deu o estalo. Eu estava com o som ligado, desliguei o som e comecei a imaginar alguma coisa para a Paraíba, (já pelo refrão que eu tinha criado) dizendo que sou da Paraíba, que acho bonito. E quando eu cheguei ao studio, rapidamente eu pedi um lápis e um papel pra concluir aquele refrão e  deixei parte da letra pronta. Essa música entrou “nas últimas!, pois eu estava finalizando um disco. Quando eu estava voltando para a casa pela madrugada conclui a letra de Joia Rara. No dia seguinte o disco já estava pronto, mas eu liguei para incluir mais uma música (Paraíba Joia rara). Então eu voltei para o studio com todos os músicos, para fazer o arranjo, pra montar...Como eu senti que a letra estava diferenciada; como eu senti que a letra tinha um potencial, eu queria um arranjo que tivesse a altura daquela letra e daquela melodia. Ai a gente foi pesquisar, procurar, fazer alguma coisa diferenciada (com piano) pra não ficar uma mesmice. A gente foi feliz. São as coisas de DEUS. Não tem muita explicação não.


DE “RAPARIGUEIRO” E DE “CABRA DESMANTELADO” VOCÊ TEM ALGUMA COISA?
Há um ser humano por trás do personagem Ton Oliveira, por trás do Cabra Desmantelado e por trás do Cabra Raparigueiro. No palco existe um cidadão, um trabalhador como qualquer outro. Nem maior, nem menor que ninguém. Eu sou um profissional. Trato a minha carreira com carinho, com cuidado. Acordo cedo, trabalho todos os dias e assim como você que é jornalista, que é repórter, que é motorista, que é mototaxista, seja qual for a sua profissão, eu trato minha profissão com muito respeito, com o devido respeito e tem dado certo até hoje. São 24 anos de carreira, mas desde menino que eu estou na música, desde menino que eu toco em conjuntos, em bares, tocando em teclado, sanfona, triângulo, zabumba, carregando caixa de som dos conjuntos. Eu sou filho de cantador de viola e eu já nasci na música. Meu pai e minha mãe não queriam que eu seguisse a carreira de músico, mas foi inevitável. Eu nasci com um dom. Não é e não foi uma coisa que alguém chegou pra me ensinar. Acho que é por isso que eu nunca aprendi de verdade. Compor, cantar, tocar é muito natural, assim como era jogar bola de gude, soltar pipa.

RECENTEMENTE TIVEMOS DOIS ÔNIBUS INCENDIADOS EM CAMPINA GRANDE, UMA SEQUÊNCIA DE MORTES (HOMICÍDIOS) E OUTROS CRIMES. COMO VOCÊ ACOMPANHOU ISSO? LHE PREOCUPA?
Enquanto cidadão eu tenho o dever de acompanhar, claro. Isso me preocupa e me preocupa muito; Enquanto artista: mais ainda. Tenho o dever e obrigação, pois somos representantes de um povo de uma grande massa. Nós temos o poder do microfone, o poder do espaço maior do que o cidadão comum, que muitas vezes não tem esse espaço. Eu tenho acompanhado isso com muita preocupação. No meu ponto de vista existe até certo descaso. Eu escuto o secretário de segurança e o próprio governador dizerem que nós temos a sensação de insegurança. Em minha opinião não é sensação de insegurança, é insegurança mesmo. Sensação é quando você sente uma coisa que não existe, mas nós tivemos em Campina Grande dez homicídios em menos  de uma semana. Tenho muito respeito ao senhor secretário de segurança, mas ele chegar para a imprensa e dizer que existe uma sensação de segurança, e de que está tudo sob controle; quando nós temos rebeliões, assassinatos, ônibus queimados numa cidade pacata como Campina Grande? Eu não vejo isso com naturalidade.
Praticamente em nosso estado temos explosões a caixas de bancos. E pouco se tem feito em relação a isso. A polícia está correndo atrás, mas correr atrás não vai resolver. Eu admiro o secretário de segurança do Rio de Janeiro. Fazum trabalho ostensivo. Ele “vestiu a camisa” realmente. Ele bota a cara, ele assume a responsabilidade. Ele não fica se escondendo, não fica repetindo frases de políticos não. Ele assume o cargo. Então eu sinto falta disso aqui na Paraíba. A polícia tem feito o trabalho, é inegável, mas eu sinto falta de uma inteligência maior, eu sinto falta de um comprometimento maior por parte do secretário e por parte do governador do estado.

TON OLIVEIRA É UM “CARA RICO”?
Não, não! É um trabalho árduo. Enquanto você tem, por exemplo, um comércio, de onde você retira o seu sustento, você tem estabilidade. Então você tem aquele comércio que lhe mantem diariamente. Nós artistas temos a dificuldade de ter que matar um leão a cada dia. Então a gente grava uma música, a música toca na rádio e faz sucesso, você está bem, mas daqui a dois meses, essa música some. Se você não tiver outra boa música, você desaparece. Se você não tiver mantendo esse bom trabalho, com muita seriedade e muito comprometimento, você desaparece. Você desaparece da mídia e desaparece dos palcos. E ai: vai viver de que? Então nós artistas temos essas dificuldades. Não só com cantores, mas a arte de um modo em geral. Então não é fácil viver e arte no Brasil.

PELA FACILIDADE DE SE GRAVAR UM CD, A GENTE PERCEBE UMA ENXURRADA DE NOVOS ARTISTAS. ENTÃO A GENTE PERCEBE TAMBÉM QUE ARTISTAS JÁ CONSAGRADOS PROCURAM NÃO PERDER ESPAÇO... 
Esse espaço, ao qual você se refere, existe para todo mundo. Cabe a cada um, conquistar o seu espaço. E essa conquista não é fácil. Você não pode ficar em casa dormindo e esperar que as coisas aconteçam.

NOS BASTIDORES DO MOMENTO JUNINO (NOS CAMAROTES) EU OUVI VOCÊ CONVERSANDO COM AMAZAN E DIZENDO QUE NÃO ESTAVA NEM PENSANDO EM GRAVAR ALGO NOVO. NO ENTANTO, ENTROU NO STUDIO E NUM “ESTALO” EMPLACOU DEZ MÚSICAS.

Renato: as dez músicas não são todas de minha autoria. É que nessas andanças agente encontra com poetas, compositores e amigos que vão mostrando composições/canções. Uns dizem: olha Ton, grava isso aqui e ai eu vou ouvindo, analisando... Eu escuto todas. No entanto este ano, na hora que eu resolvi gravar foi alguma coisa meio que repentina. Entrei em contato com os autores e perguntei se as músicas estavam liberadas para eu gravar. De pronto recebi o aval. Como eu tenho muitas composições de minha autoria na gaveta, guardadas e inéditas, rebusquei e está ai: o CD está na praça com aceitação muito legal.

COMO É O DIA A DIA DE TON OLIVEIRA FORA DO TRABALHO?
Normal. É como qualquer outro dia de folga de um sujeito que trabalha e merece descanso. Eu sou um cara de vida muito simples. Sou normal. Gosto de ficar de bermuda, de sandália, pé no chão. Sempre que posso bebo uma cervejinha com amigos. Vou à feira da Prata (em Campina Grande), na feira Central. Dou uma passadinha no Calçadão. Isso é de mim. Eu não tenho esse status de artista no meu dia a dia. Eu não levo esse status de artista no meu dia a dia. No dia a dia sou uma pessoa comum como qualquer outra. É assim que sou. É assim que aprendi a ser. Gosto de pescar; vou a Boqueirão. Saio numa canoa com o canoeiro, converso, pesco um peixe. Acho isso muito massa, legal!

VOCÊ TEM UMA LEGIÃO DE FÃS E ISSO É UMA RESPOSTA PELO SEU TRABALHO. COMO É ESSE CONTATO: ARTISTA E FÃ?

Isso é uma resposta pelo que já fiz e faço como artista. Sinto-me muito feliz com isso. Nos meus shows, pessoas de todas as idades, eu vejo do palco. Eu vejo crianças, pessoas já de idade avançada, cadeirantes... Eu vejo, eu sinto. Eu me sinto muito feliz com isto. Eu sei também que não agrado a todos, mas você não imagina a satisfação de conseguir esse leque, essa expansão de fãs nos shows. Isto é muito gostoso. Imagina saber que tem pessoas de várias idades que assistem o meu DVD em casa e quando me veem, parabeniza, tira uma foto. É muito bom isso. Eu sou um sujeito de vida simples. Eu gosto do povo.

COMO VOCÊ ESTÁ VENDO TODA ESSA CRISE MORAL NO PAÍS. TODA ESSA SUJEIRA SENDO EXPOSTA?
A corrupção está em toda parte. O país adoeceu da doença chamada “corrupção”, o país está doente. Hoje se investiga a Petrobrás, mas se forem investigar outro órgão, vão encontrar mais corrupção. Toda semana, em cada cidade desse país, a gente assiste uma reportagem sobre um roubo, uma corrupção. Infelizmente essa “cultura da corrupção” se tornou algo natural. Virou algo normal, coisa comum. Numa parada de ônibus, num bar, num banco, no dia a dia das pessoas, na entrada de um campo de futebol, numa prefeitura, no estado, nas câmaras, num senado, num governo federal ela está lá, normal. Infelizmente nós adoecemos dessa doença chamada corrupção. Por outro lado eu sou um otimista, mas essa doença é de difícil cura.

E ESTE ANO: COMO ESTÁ A AGENDA?
Este ano é  um ano diferenciado. É um ano que a gente tem sérios e vários problemas nacionais de roubo, de corrupção, de rombo, no governo, no ministério do turismo (que não está em condições hoje de bancar eventos); temos o problema agravante da seca (que sempre teve, mas este ano se assola muito mais). Então vai se cortar por onde? Vai se cortar pelo supérfluo. Um exemplo: se você está em situação difícil na sua casa, você começa a cortar aquelas coisas que você não tem muita necessidade. Então: festas são uma das primeiras coisas que se cortam. E isso é uma prática natural, diante da situação.
Mesmo assim não posso reclamar. Estou com a agenda preenchida. 

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