domingo, 21 de setembro de 2014

“FOI TERRÍVEL”, DIZ EX-POLICIAL PRESO POR HOMICÍDIO QUE HOJE DIRIGE CADEIA NA PB; EX-PM FOI PRESO EM 1991 E CUMPRIU CINCO ANOS EM REGIME FECHADO


Taiguara Rangel
Do g1pb
Após cumprir pena em regime fechado em três cárceres na Paraíba, o ex-policial militar Silva Neto, preso por homicídio em 1991, desabafa o sofrimento vivido nos mais de cinco anos em que cumpriu sua condenação: "foi terrível, agradeço por estar vivo".
Hoje diretor da cadeia pública de Sapé, na Mata paraibana, ele conseguiu superar a vivência em meio aos presos e, depois, o preconceito e a falta de condições de estudo e oportunidades de trabalho.
De temperamento explosivo, ele define sua atuação na PM paraibana como “linha dura”, acostumado a bater, perseguir e matar criminosos.
Foram várias as ameaças de morte recebidas pelo ex-policial durante os anos em que cumpriu pena no 3º Batalhão da Polícia Militar de Patos, na cadeia pública de Princesa Isabel e no Presídio do Serrotão em Campina Grande.
Porém, as dificuldades não terminaram com o enclausuramento. Com a liberdade, veio o problema de conseguir seguir a vida e se desvincular do histórico criminal.
O ex-presidiário teve que superar adversidades para arrumar emprego, manter a família, criar os filhos e ser aceito de volta na sociedade.
"Bati em várias portas, mas as pessoas sempre batiam a porta na minha cara, não acreditavam na recuperação. Passei cinco a seis meses fazendo bicos para me manter. Era segurança de noite e vendedor ambulante durante o dia para completar a renda, colocava as coisas no bagageiro de uma bicicleta. Fiz curso de cobrador de ônibus, fiz curso de técnico em segurança, fui radialista. Sempre continuei correndo atrás de emprego. A pessoa não acredita no preso, sempre tem desconfiança", disse.



O CÁRCERE
Para quem costumava perseguir criminosos, a convivência no presídio não foi fácil.
"Foi um tormento muito grande para mim e minha família. A corrupção era grande dentro dos presídios, só tinha valor quem tivesse algum dinheiro para pagar pela vida. Eu era um policial linha dura, eu ia atrás do tráfico, eu perseguia bandido para matar mesmo. Quando eu entrei no presídio do Serrotão, os presos começaram a balançar as grades dizendo que iam me matar", contou o ex-PM.
"Oriundos das polícias, quando cometem crimes, precisam de um pavilhão separado. Alguns que praticam desvio de conduta, como eu, são colocados lá dentro junto com as pessoas que ele prendeu ou perseguiu, abusou da autoridade. Foi difícil, tem hora que penso que não estou aqui fora. Só eu sei o que eu sofri. Ninguém chegou a me bater, mas recebi ameaças direto de ser morto, era constante, unicamente pelo fato de ser policial", alegou Silva Neto.
Aos 47 anos e com oito filhos, após sair da cadeia ele passou seis meses fazendo “bico” para garantir o sustento.
“Comecei a participar do trabalho religioso e pensei: já provei tanta coisa ruim, vou tentar provar coisa boa. E fui mudando e passando ensinamento pros meus filhos. É uma alegria grande, não só ter saído [da cadeia], mas ver meus filhos homens e mulheres de bem”.

A LIBERDADE
Apesar do trauma de meia década privado da sua liberdade, o ex-policial aceitou o desafio de voltar a entrar em uma unidade prisional.
Desde 2011, Silva Neto é diretor da cadeia pública de Sapé, onde mantém 180 presos em um trabalho voltado para a educação e ressocialização, contando ainda com 80% destes colaborando com a manutenção da cadeia.
"Em 1997 fui beneficiado com indulto presidencial, foi perdoada minha pena devido ao meu comportamento. Eu estudava no presídio, terminei ensino fundamental e médio, que eu não tinha. Mudei muito depois dessa época, minha vontade de vencer era muito grande. Comecei a trabalhar como vendedor, fiz cursos técnicos profissionalizantes, fui segurança e radialista, até que fui chamado para integrar a Secretaria de Administração Penitenciária (Seap) e hoje estou cursando Direito em João Pessoa", destacou.
“Fazemos um trabalho diferenciado dos demais presídios. Aqui, tenho 180 reeducandos e todos eles estão em sala de aula. Eles sabem meu passado, bato papo, tomo café, entro nas celas para conversar. Montamos biblioteca, rádio alternativa para dar as notícias de fora, o projeto 'Escola sem Violência', onde levo para a instituição um reeducando que está tentando mudar e falar sobre a escolha que ele fez, o sofrimento que passou e levou sua família a passar", disse.
(g1pb)
Fotos: Silva Neto

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